Interpretação de Vidas Passadas

Introdução:

Relatórios de crianças que alegavam recordar de vidas prévias ocorreram esporadicamente no final do século 19 e nos primeiros anos do século 20. Em 1960, eu publiquei uma análise de 44 casos deste tipo que tinham chegado ao meu conhecimento por várias fontes, principalmente através de livros e revistas. Achei a evidência em alguns casos persuasiva de um processo paranormal, e por isso eu quero dizer que uma criança tinha mostrado conhecimento sobre a vida de uma pessoa morta desconhecida à sua família, conhecimento que não pareceu ter obtido por meios normais de comunicação. Eu recomendei que um esforço fosse feito para localizar e cuidadosamente investigar novos casos.

O caso de uma criança reivindicando lembrar-se de uma vida anterior consiste em muito mais que declarações expressando o que ela acredita serem memórias imaginadas da vida prévia, sejam elas verificadas ou não. A criança quase sempre também mostra uma variedade de comportamentos que são incomuns na sua família e consoante com o que ela pode ser aprendido ou razoavelmente conjecturado (em casos resolvidos) sobre as características da pessoa morta envolvida. Além do mais, muitas das crianças mostram características físicas raras que correspondem a ferimentos ou outros aspectos físicos da pessoa morta envolvida cuja vida uma criança parece lembrar-se.

Sabemos pouco sobre a incidência de crianças que alegam lembrar-se de vidas anteriores. Sabemos, no entanto, que mesmo em países como esses do sul da Ásia, onde podemos achar estes casos mais prontamente do que no Oeste, eles não ocorrem freqüentemente. A única pesquisa sistemática já empreendida, conduzida numa região da Índia do Norte, mostrou que só aproximadamente 1 pessoa entre 500 reivindicou lembrar-se de uma vida anterior. Obviamente, a maioria das pessoas não alega lembrar-se de uma vida anterior. Portanto, uma suposição importante deste artigo é que, se a reencarnação ocorre, vidas anteriores podem ter efeitos em pessoas que não possuam nenhuma memória imaginada de alguma.

Problemas não resolvidos na medicina que as vidas anteriores podem elucidar

Fobias na infância:

Numa série de 387 indivíduos que reivindicaram lembrar de uma vida anterior, fobias ocorreram em 141 (36%). As fobias quase sempre concordaram com o modo de morte na alegada vida anterior.

Por exemplo, uma criança que alegou lembrar de uma vida que acabou em afogamento tinha uma fobia de ser imersa em água; uma que disse lembrar de uma vida com morte por ferimento de bala tinha uma fobia de revólveres.

A maioria das fobias ocorreram em casos em que uma morte violenta figurou-se; mas elas também ocorreram em casos com morte natural. A incidência de fobias varia um tanto com o modo de morte. Por exemplo, 30 (64%) de 47 pessoas que se lembraram de uma morte por afogamento tiveram uma fobia de água, ao passo que só 13 (43%) de 30 pessoas que se lembraram de morte por mordedura de serpente tiveram uma fobia de cobras.

Em numerosos exemplos – eu não tenho uma figura exata para isto – a criança manifestou a fobia antes de ter falado sobre uma vida prévia. Os pais ficavam então aturdidos pela fobia até que a criança tivesse dado sua explicação de um acontecimento – normalmente o modo de morte – numa vida anterior. Em cada caso os pais da criança não podiam identificar nenhuma experiência pós-natal nem modelo em outro membro da família que pudesse explicar a fobia.

Dado a incidência alta de fobias em crianças que alegam se lembrar de uma vida anterior, parece permissível sugerir que uma vida anterior pudesse explicar algumas fobias que ocorrem em crianças que não se lembram de vidas anteriores. (Doravante, por brevidade apenas, eu às vezes omitirei ‘alegaram’ na frente de tais palavras como “se lembrar” e “lembraram-se”. Eu não pretendo desse modo tomar a questão da melhor interpretação destes casos).

Menzies e Clarke estudaram 50 casos clínicos de fobia de água infantil na Austrália. Interrogaram os pais das crianças sobre quaisquer experiências que contribuíssem ou modelo que pudessem explicar a fobia. Em 28 (56%) dos casos os pais não puderam informar nenhum fator e afirmaram que a criança mostrou uma fobia de água ao primeiro contato. Sugiro que as fobias de água nestas crianças, mesmo que elas nunca tenham mencionado uma vida prévia, possam derivar de morte por afogamento em uma.

Habilidades não ensinadas na infância:

Numa série de 278 casos, os indivíduos exibiram habilidades incomuns em (24%) dos casos (dados inéditos). A habilidade era freqüentemente a vocação da pessoa morta envolvida. Por exemplo, uma criança que se lembrou da vida de um motorista de carreta brincava se sentando atrás de um cavalo puxando uma carreta. Uma criança que lembrou-se da vida de um médico brincou de ser um e sacudiu para baixo um pau pequeno como se fosse um termômetro médico. Outras brincam imitando o passatempo, tal como um jogo favorito com contas. Outras crianças ainda nomearam bonecas ou outros brinquedos depois dos filhos da pessoa morta em questão. E outros restabeleceram brincando o modo de morte na vida anterior alegada. Em todos os casos a família da criança não forneceu nenhum modelo que imitasse a brincadeira.

Sugiro que interesses precocemente expressados e metas que algumas pessoas põem para si na infância que não possuam nenhum estímulo óbvio, e que por vezes encontra mesmo oposição de seus familiares, pode derivar de vidas anteriores. Exemplos ocorreram nas infâncias de George Frederick Handel (o compositor), Florence Nightingale (a fundadora da enfermagem moderna), Elizabeth Fry (uma reformadora notável da prisão), Heinrich Schliemann (o descobridor de Tróia), Jean-Francois Champollion (o decifrador dos hieróglifos egípcios), e Michael Ventris (o decifrador de Linear B). Eu não estou ciente de que quaisquer destas pessoas tenham-se lembrado de uma vida prévia, mas a precocidade e a intensidade de seus esforços em direção a metas incomuns não tem nenhuma explicação normal em suas histórias genéticas ou familiares.

Rejeição dos pais:

Muitas crianças que alegam lembrar-se de uma vida anterior falam que possuem outra família. Por exemplo, uma criança pode dizer a sua mãe: ‘Você não é minha mãe real. Minha mãe real está em…’ e nomeiam outra comunidade. A criança pode fazer comparações injustas entre a ‘mãe real’ e a de quem pretende estar falando. Por exemplo, a ‘mãe real’ tem aparência melhor e mais generosa. Tais crianças freqüentemente exigem ser levadas à outra família e podem ameaçar irem sozinhas se não forem levadas; algumas realmente começaram a descer a estrada para ir à outra família.

Psicólogos clínicos e psiquiatras de longe sabem que os pais freqüentemente descrevem uma criança como comportando-se de forma diferente do resto da família e quase como se fossem um estranho entre eles. A alegação por uma criança que a sua família não era realmente sua era bem conhecida na primeira década do século. Freud escreveu um artigo sobre o fenômeno e caracteristicamente o interpretou como uma fantasia de acordo com suas teorias.

Tais crianças alienadas podem mostrar pouco ou nenhum afeto a pais que, de sua parte, mostram grande afeto por elas. Kanner observou que crianças que mais tarde foram identificadas como autistas freqüentemente não faziam esforços para alcançar seus pais quando eles tentavam levantá-las. Sugiro que tal alienação possa derivar de experiências infelizes numa vida anterior, mesmo quando a criança não tenha nenhuma memória de uma. Esta conjectura obviamente opõe-se à visão de que esse autismo infantil deriva exclusivamente de fatores biológicos, principalmente genéticos.

Algumas crianças que alegaram lembrar-se de uma vida anterior identificam sua vida anterior como a de um membro morto da própria família, tal como um irmão da mãe ou pai. Tais crianças assim parecem lembrar-se da vida de um tio, tia, ou avô. Nestes casos a criança freqüentemente adota uma atitude de igualdade, se não superioridade em relação a seus pais. Por exemplo, pode chamar seus pais pelos seus nomes ao invés de se dirigir-se a eles como ‘Mãe’ ou ‘Pai’.

Estas crianças às vezes mostram atitudes de afeição especial ou antagonismo em relação a membros da família que discriminadamente correspondem às atitudes da pessoa morta envolvida mostradas através destas diferentes pessoas. Os pais de crianças que não se lembram de vidas anteriores às vezes comentam sobre atitudes semelhantes mostradas por uma de suas crianças. Uma mãe pode dizer, por exemplo, ‘Minha filha comporta-se em relação a mim como se fosse minha tia, não minha filha’.

Sinais de nascença:

As crianças que alegam se lembrar de uma vida anterior freqüentemente tem sinais de nascença que correspondem a feridas ou outras marcas na vida aparentemente lembrada. Numa série de 895 indivíduos de nove países e culturas diferentes, 309 (35%) tiveram tais sinais de nascença. Os sinais de nascença nestes indivíduos raramente são somente os simples nevos hiperpigmentados (pintas) de que quase todo o mundo tem um ou mais.

A maioria deles são depressões (ou elevações) em relação à pele adjacente; são normalmente calvos e freqüentemente franzido e lembram uma cicatriz; alguns são hipopigmentados. Esses que são planos e hiperpigmentados são normalmente maiores que os nevos ‘costumeiros’ e freqüentemente localizado em lugares onde tais nevos raramente ocorrem, tal como na cabeça ou pernas e pés.

As correspondências em locais entre os sinais de nascença e feridas ou outras marcas no corpo da pessoa morta envolvida foram verificadas com documentos médicos, normalmente informes postmortem, em 43 de 48 casos em que tais relatórios foram obtidos para casos com outros dados suficientes para análise. (Esta série incluiu 6 casos com defeitos de nascimento; os indivíduos restantes tiveram sinais de nascença). Pasricha publicou relatórios de uns 10 casos adicionais (2 com defeitos de nascimento, 8 com sinais de nascença) entre os quais documentos médicos confirmatórios foram obtidos em 6 casos.

Alguns sinais de nascença nestes casos mostram detalhes pertinentes que reduzem ainda mais a probabilidade de que a correspondência entre eles e as ferida aparentemente relacionadas ocorram por um acaso. Por exemplo, em 18 casos em que a morte na vida anterior foi causada por um ferimento de espingarda, o indivíduo teve dois sinais de nascença correspondendo aos ferimentos de bala de entrada e de saída. Em 14 destes, um sinal de nascença era apreciavelmente maior que o outro; isto concorda com o fato quase invariável que as feridas da bala de entrada são pequenas e redondas, as de saída são maiores e irregulares na forma.

Em 20 casos o corpo de uma pessoa moribunda, ou de alguma que acaba de morrer, foi marcado por alguém de luto, normalmente um membro de família, com fuligem ou alguma outra substância colorida. Um bebê nascido posteriormente, normalmente de outros ramos da família, leva uma marca de nascença no local da marcação da pessoa morta; alguns destes bebês, quando são capazes de falar, expressam as memórias da vida da pessoa marcada, mas outros não o fazem. Dois de meus colegas recentemente investigaram 18 casos adicionais destes ‘sinais de nascença experimentais’, os quais eles logo publicarão em um relatório.

Com exceção de casos raros que mostram a herança de um nevo no mesmo local, nós sabemos pouco sobre por que uma pessoa tem um sinal de nascença em um local em vez de em outro. Acredito que vidas anteriores podem contribuir ao entendimento da localização de alguns sinais de nascença.

Defeitos de nascença e outras anormalidades físicas:

Embora seu número seja menor que os dos indivíduos com sinais de nascença, um número apreciável dos indivíduos destes casos tem defeitos importantes de nascença, tal como hemimelia, microtia, bracquidactilia unilateral, e micro-pênis. A maioria dos defeitos de nascimento não correspondem a qualquer reconhecido ‘padrão de malformação humana, em vez disso, eles correspondem a cortes de espada, ferimentos de espingarda, ou a outros modos de morte.

Por exemplo, uma criança, nascida com braquidactilia unilateral da mão direita, disse que lembrou-se da vida de uma criança em outra aldeia que teve cortar os dedos da sua mão direita quando ele acidentalmente colocou-os entre as lâminas de uma máquina de alimento para animais. Esta criança subseqüentemente tinha morrido de uma doença sem ligação. Braquidactilia unilateral é tão rara que eu não fui capaz de achar outro relatório publicado como exemplo.

Defeitos significativos de nascimento ocorrem em aproximadamente 2% de nascimentos vivos. Várias causas de defeitos de nascimento – certas drogas, infecções virais, e álcool, por exemplo, foram identificados. Não obstante, entre 43% e 70% de defeitos de nascimento são designados a ‘causas desconhecidas’. Nossas investigações sugerem que alguns defeitos de nascimento podem derivar de feridas físicas numa vida anterior. Num número significativo dos casos que nós investigamos o indivíduo manifestou sinais físicos e/ou de sintomas de uma doença interna a qual a pessoa morta envolvida tinha sofrido.

Manifestações precoces de diferenças no temperamento:

Os informantes para os casos de crianças que alegam se lembrar de vidas anteriores às vezes observam que o indivíduo de um caso verificado mostra qualidades temperamentais que a pessoa morta envolvida também manifestava. Por exemplo, eles podem ter tido e tiveram uma tendência a hiperatividade. Em três casos que eu estudei, o indivíduo e a pessoa cuja vida ele ou ela lembrou-se eram ambos notoriamente irritadiços.

Os investigadores de temperamento observaram que os neonascidos com alguns dias de idade mostram diferenças significativas nas características de personalidade. Charles Darwin, que sistematicamente registrou a ‘expressão das emoções’ nas próprias crianças, notou que seus rapazes, na infância, mostraram uma tendência a jogar objetos, tal como livros ou paus, em qualquer um que os ofendessem; mas suas filhas nunca fizeram isto na infância. Autores que acharam estabilidade nas medidas de temperamento entre infância e posterior adolescência ou amadurecimento favoreceram como explicações para tal estabilidade, quaisquer influências do ambiente ou fatores biológicos. Ninguém até aqui sugeriu que um componente de temperamento possa derivar de uma vida anterior.

Discussão:

As discussões sobre a importância relativa da hereditariedade e influências do ambiente no desenvolvimento de ser humano possuem uma história antiga, mas esforços sistemáticos para distinguir as influências da ‘natureza e da criação’ começaram no século 19 com os estudos de Galton de gêmeos. Desde então proponentes da hereditariedade (agora genética) e do ambiente alternadamente proclamaram a superioridade de seus pareceres. Nelkin e Lindee narraram os ciclos de domínio neste século: a eugenia veio primeiramente e foi seguida (depois da Segunda Guerra Mundial) por uma fase de atribuir quase todas as doenças sociais e psicológicas ao ambiente; isto foi sucedido novamente pela atual hegemonia da genética. Nenhum lado admite a derrota.

Um artigo recente claramente típico de geneticistas rapidamente recebeu uma reação severa por ecologistas. Sugiro que ambos os lados neste debate supervisionem a possível contribuição de um terceiro fator, a saber vidas prévias. Proponho uma maior investigação deste possível fator, não com vista a substituir o que é conhecido ou que possa ser aprendido pela genética e o ambiente pós-natal, mas como um suplemento a esse conhecimento que pode melhorar nosso entendimento de vários fenômenos que, até agora, a genética e influências do ambiente não podem explicar, nem separadas nem em conjunto.

Estou bem ciente que nós facilmente podemos super-estimar o poder explanatório. A história da medicina fornece muitos exemplos de teorias cujos proponentes reivindicaram poder explanatório imenso para elas, porém mais observações mostraram suas reivindicações extravagantes serem infundadas. Coloco a frenologia, a homeopatia, e a psicanálise neste grupo. A hipótese de uma vida prévia pode evitar o destino de tais teorias anteriores só através de uma atenção incessante a interpretações alternativas da parte dos investigadores.

Nós também devemos reconhecer o que uma vida prévia não explica. Nossas investigações não determinaram quase nenhuma evidência para duas características freqüentemente unidas a idéias populares sobre reencarnação.

Primeira, habilidades não ensinadas raramente ocorreram entre as crianças que nós estudamos. Elas freqüentemente mostram, como mencionei, interesses precoces e aptidões às vezes raras, mas habilidades não plenamente formadas, tal como gênios como Mozart e Gauss manifestaram na infância.

A segunda, as crianças que alegam lembrar de vidas prévias – com três exceções – não forneceram qualquer evidência de recompensa numa vida posterior pelo comportamento impróprio numa anterior.

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